Habla y habla: do Enem ao prêmio Nobel, a tripla jornada merece ainda mais holofotes
No início deste mês, a minha colega Rachel mencionou uma pesquisa realizada pela economista Claudia Goldin, vencedora do Prêmio Nobel de Economia em 2023, sobre o papel das mulheres no mercado de trabalho nos Estados Unidos. Entre as conclusões da pesquisadora estava o impacto negativo da sobrecarga doméstica na progressão profissional das mulheres e as consequências para a economia em geral.
Recentemente, o Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) abordou um tema relacionado a essa problemática. O tema da redação deste ano foi “Desafios para abordar a invisibilidade do trabalho de cuidado realizado pelas mulheres no Brasil”, abrindo espaço para discutir a dupla ou tripla jornada enfrentada por muitas mulheres e seu impacto na desigualdade de gênero.
Embora esse seja um problema antigo, que já vem sendo estudado há mais de 200 anos, ainda é relevante falar sobre ele. Acredito que temos muito a aprender com experiências pessoais e dados concretos.
Uma mulher da minha própria família perdeu o emprego logo após retornar de sua licença-maternidade, após cuidar de sua primeira filha por seis meses. Em outra situação, uma mãe desconhecida teve sua posição no trabalho “reatribuída” quando voltou de licença e acabou renunciando pouco antes de eu começar a trabalhar na mesma empresa.
Uma amiga querida se sente pronta para ser mãe, mas tem medo de engravidar porque é responsável por mais da metade da renda familiar e teme não ter dinheiro suficiente para sustentar uma possível ausência do trabalho.
Dados também indicam a realidade dessa desigualdade. De acordo com uma pesquisa da FGV, quase metade das mulheres que tiram licença-maternidade estão fora do mercado de trabalho após 24 meses, mesmo quando passaram quase quatro anos desde a licença. A maioria das saídas do mercado acontece sem justificativa e por iniciativa dos empregadores. Um estudo da Catho em 2018 revelou que 30% das mulheres deixam o trabalho para cuidar dos filhos, enquanto entre os homens esse número é de apenas 7%.
Além disso, ao buscar por diretoras executivas alguns anos atrás, deparei-me com dificuldades extremas para encontrar candidatas mulheres e acabei tendo que me contentar com um grupo maior de executivas.
Os números no Brasil também são alarmantes. Apenas 15% dos cargos gerenciais nas empresas listadas na bolsa são ocupados por mulheres em 2022, marcando uma pequena melhoria em relação a 2017, quando esse número era de apenas 9%. Quando se trata da posição de CEO, menos de 1% das empresas listadas na B3 têm uma mulher nesse cargo.
Em resumo, mesmo sendo um problema antigo, a desigualdade de gênero persiste no mercado de trabalho, afetando negativamente as oportunidades profissionais das mulheres e refletindo-se nos números preocupantes sobre suas representações em cargos de liderança. É fundamental continuarmos discutindo e buscando soluções para promover a igualdade de gênero no contexto profissional.
| Notícia |
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| No início deste mês, a economista Claudia Goldin, vencedora do Prêmio Nobel de Economia em 2023, mencionou pesquisa sobre o papel das mulheres no mercado de trabalho nos EUA. |
| O Enem abordou o tema da invisibilidade do trabalho de cuidado realizado pelas mulheres no Brasil em sua redação deste ano. |
| Sobrecarga doméstica impacta negativamente a progressão profissional das mulheres e a economia em geral. |
| Desigualdade de gênero persiste no mercado de trabalho, afetando oportunidades profissionais das mulheres e sua representação em cargos de liderança. |
Com informações do site Glamour Brasil.